quarta-feira, 16 de maio de 2012

a gente passava a noite jogando dardos, partidas intermináveis, até oito da manhã, tanto que me faziam perder a hora pra coisas lá no começo da noite, eu dormia o dia inteiro, acordava com as bolas de sinuca batendo na mesa da garagem, vira e mexe e alguém matando bolas alternadamente até que eu pudesse abrir os olhos grudados para tentar alguma coisa já naquele fim de tarde de dia de semana, cachorros na rua, latidos por todos os cantos e eu, nu, desço pra ligar a televisão e não tem nada, só as mesmas músicas que me dão sono ao tentar acompanhar, é melhor eu subir, é, melhor eu subir e acusar minha vida medíocre, minha rotina pizza velha de balcão, crachá que passa não ponto e todos os documentos atrasados, rigorasamente atrasados, esperando sei lá o que eu deveria fazer não fosse assim, tão, sei lá, tão assim.





oras,

não tem muito o que pensar, oras, sou eu e meus sonhos mal resolvidos mesmo nessa casa grande onde um dorme aqui no sofá, outro na vitrola e quartos cheios, sempre assim, é quando eu chego da redação ali pela uma e pouco da manhã, morrendo de fome igual sempre, puta que o pariu, e aí tem os caras batendo papo no sofá, falando as mesmas teorias de sempre, da poligamia utópica dos jardins elevados da conceição ou sobre a fórmula mágica do homem que comia todas as mulheres do mundo, recebia por isso em dinheiro vivo, com abono, e conhaque e ainda tinha tempo pra jogar bilhar rindo com o chris indo pra escola quando chove, andando de bicicleta quando chove, pobre alma, vai ver está acabando, é mais ou menos que fechamos por aqui, pelo menos é assim que costuma parecer nestas madrugadas de hoje, porque enquanto é noite e os olhos estão abertos, é hoje, é noite, e o amanhã tá logo ali, longe.

quinta-feira, 8 de março de 2012

baldiação

nunca as coisas pareceram tão simples, e essa naturalidade com que pingos vão caindo nos is chega a ser incômoda, vá entender. não que eu concorde com o bruno graziano, que diz que o escritor não pode ser feliz. é que a melancolia das canções soa tão bem, sempre, tanto quanto as angústias dessa são paulo ambígua nos textos aqui e ali ou a tristeza dos telefonemas de amores perdidos. pessimismo, vai, melhor que isso, vai ver o atraente das palavras seja a frieza emotiva, a decadência lenta, a frustração do chinaski a cada esquina. aquele ar operário urbano, sofrido e claustrofóbico, solitário, sabe, diante dos sorrisos de quem transpira alegria na cidade.

mas bastou subir a josé antônio coelho para vê-la sorrir e toda a teorização ir por água abaixo. como questionar a felicidade daquelas pernas desinibidas e maçãs rosadas caminhando até mim, sem nenhuma questão mais antropológica ou mesmo metódica dos últimos encantos. somos só eu, ela e o paraíso brigando com o ana rosa pela condição de mais bela baldiação azul-verde jamais vista nesta metrópole. eu fico com o meio termo, ali na padaria com o econ e um abraço forte, um beijo nem ao posto de gasolina nem ao extra da domingos de moraes, nem amor platônico nem sexo casual, eu acho.

na mesa do charm, neymar, o garçom, desfila com suas brahmas enquanto tira um batuque da ponta do abridor no bico do casco. sorri trazendo o pedaço de pizza com o paninho sobre o ombro, um olho no celular e um na tv, avental sujo de mostarda. uma, duas, três, ali fomos virando homem sondando os rabos que param na esquina com a antônio carlos pra descer a augusta em busca dum amor de sexta-feira desde o colegial; ou que sobem, lindas, cansadas, chorando por um trago ou um ombro pra entrar no espaço unibanco.

da janela, o reflexo dum reprise de futebol na espn: macarrão sem sal e água, bloco de notas e google.

e caímos pro ibotirama pra ter a certeza que precisamos de um acre por dia, um plano mirabolante pra tirar o mundo da mão dos tristes, nem que tudo não passe de um filme de vinte e seis minutos sobre um bairro de são paulo. o suficiente pra ir pensando no aclimação até ele virar na cubatão e eu dar um sinal - o último - pra voltar pro meu casulo de planos adiados e colocar linha por linha na minha lista de prioridades que convive com o delay de uma vida.

o meu primeiro encontro com ela foi exatamente por ali, e imagine só, não houve tempo pra tristeza. até teve o glamour daquela noite de trinta de abril quando deixamos o café creme com doze toques e doze chopes na conta de cada um e um contrato social de que nos amaríamos pelos próximos trinta meses. eu me lembro perfeitamente da minha felicidade cantando qualquer coisa na anchieta, vidro aberto, olhos com lágrimas de vento.

é que logo no meu primeiro dia de aula em galway, quando eu ainda morava com os cubbard, eu saia pra escola as dez pras seis e a mary repetia o bye, love, dont study too much diante do mike me acenando, bêbado de bud, e o max latindo pros meus passos até eu chegar lá na bridge mills. ando te obedecendo, querida mary, e quando eu mexo o açúcar no café eu lembro das suas dicas marginais e dos arrotos do mike.

tirei a toalha molhada de cima do colchão pra não acordá-la e ela me deixou um bilhete bonito.

dei meia volta, uma gargalhada sincera pro primeiro metrô conceição que surgiu e já não sei como faço pra voltar. muito menos onde guardei a tristeza.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

br 364

fui testar o bilhete único e passou com créditos de não sei quando e o eclético corredor da estação paraíso levando pessoas às ruas e aos amores que vão aparecendo para que se mate saudade de casa cinquenta e poucos dias e dois e noventa depois. uma descida no parque e buzinas e bundas tão paulistanas e nossas quanto acreanas são as coxas e sorrisos que cortam as já saudosas garagens boêmias da também nossa rio branco.

cinco e qualquer coisa, a saída do hotel loureiro teve quase o mesmo ritual de sempre. a diferença é que desta vez a gente não ia voltar dali a pouco e depois da marechal deodoro, brasil e ponte velha tomamos a via chico mendes pela última vez deste tempo ouvindo jabuti bumba no volume quarenta e sete, meio sono meio coragem, meio preguiça meio alívio e cinquenta horas de acre na câmera.

na descida da augusta, os amigos e colegas vão pipocando abraços e brindes e tudo vai voltando ao normal. as grandes pernas morenas amazônicas viram bonitos pares mais brancos e suas saias e shorts jeans que levam a imaginação até o all-star também branco. a calmaria do rio que desce a gameleira vira luz, não o amarelo da ponte que leva ao segundo distrito da capital acreana, mas o vermelho das casas adultas e o amarelo dos copos de cerveja refletidos naquela multidão que corre e pulsa como em nenhum lugar do planeta.

numa pernada até rondônia, o calor queima, descasca o braço que sucumbe à direção interminável. resta só hora e pouquinho pro destino da primeira noite. o acre é passado, e num grito a gente se despediu dele enquanto o mestre cícero, na faixa nove, chamava as crianças a dançar. o sol se vai e o escuro nos deixa com o carro na mão. triângulo, macaco, guincho, um prato feito no bem bolado dos fundos da borracharia e música baixa pra dormir a última no norte.



norte, quem é que tem?, vá saber, eu ficava pensando enquanto alguém roncava no banco de trás e eu levava sozinho cem, duzentos, sei-lá-quantos quilômetros e tudo virou mato grosso, mato grosso do sul, são paulo e foi virando nossa casa de novo, assim, devagar mas rapidamente, sem avisar nem explicar muito o que estava acontecendo.

na mooca, falta pro autônomos, algo entre a meia e a ponta esquerda. no praticamente meu primeiro toque na bola ela viajou bonito - tá, não foram três mil e setecentos quilômetros - e estacionou lá no ângulo do goleiro rival. gol, gol, caralho, eu ergui o braço do sócrates pra comemorar feito o doutor, beijei o símbolo como em cada um dos meus quase dez pelo rubro-negro, uns tapas nas costas e o filme passando pela cabeça. um gol como o primeiro, e-xa-ta-men-te igual o primeiro, e de lá pra cá era meio de dois mil e nove, por aí, não tinha passado o frio de galway nem o calor de cuiabá, e era como se tudo começasse de novo, um primeiro gol de uma vida que parece, mesmo, recomeçar agora.

e aí eu me lembrei da incrível munique, onde o melhor plano era ficar perambulando sem plano pelas avenidas e parques da cidade. não muito diferente do que fizemos em assis brasil - o cu do país, disse um bêbado local - na tríplice fronteira - um rio e é bolívia, uma ponte e é peru; fui então ser turista em são paulo, cair na consolação e me perder entre as livrarias e bancas de jornal e me achar, finalmente, num pingado de balcão de mármore. e todas aquelas vozes, apertadas e sufocadas e brigando para invadir ouvidos a cada faixa de pedestres faziam o maior sentido possível.

mas o palmeiras foi a campo todo de verde no meu jogo de futebol favorito e aí eu me dei conta, se não bastasse tudo aquilo, que acho que não é tão difícil saber de onde se vem e onde se quer estar. o neymar fez o primeiro, menino bom, santos na frente, inteiro de branco, contraste com o luto da sala da casa dos meus pais que já foi virando aquele velório dos sonolentos jogos do nosso time todo santo domingo. às vezes não. mais um copo de café, uma mijada de porta aberta, e um último filho da puta prum volante improvisado bastaram para que o boring, boring palmeiras virasse a coisa mais legal do mundo. de novo.

primeiro nosso gigante macunaíma sobe feito centroavante que se respeite e empata, aos quatrocentos minutos do segundo tempo. não satisfeitos, os de verde-esperança partiram para o ataque, e seria demais imaginar um roteiro de gol contra, bola devagar, devagar, morrendo na rede pro lamento virar euforia em dois a um.

vai ver a única coisa que mudou fui eu mesmo, porque bastou uma volta no bairro da infância pra ver que tudo segue bem igual. o autônomos continua sofrendo com o calor, o acre se mantém longe pra caralho daqui, o palmeiras continua sofrendo com a bola mesmo, a augusta carece de amor e minhas saudades agora viajam sem cansar.

*a foto é do bruno graziano