quarta-feira, 16 de novembro de 2011

meia-noite longe de paris


no meu primeiro cinema enquanto cidadão paulistano eu tomei um café com leite no paraíso e tomei o metrô até a consolação pra descer a augusta disposto a desculpar paris. tem quatro meses que rimos dos ratos no centro da capital francesa, e eu tinha uma noite de segunda-feira e hora e pouco de woddy allen para ver se os parceiros de cochilo no louvre tinham mesmo razão. tanto luciano quanto lucas listaram elogios sobre a cidade das luzes: ‘temos de nos redimir com paris’, cravaram, eu lembrei quando a luz apagou no unibanco ali pelas oito e pouquinho.


pra paris, luciano nos fez perder o vôo. tá, foi uma noite e tanto em barcelona – me alongaria demais pra contar da cerveja dupla, da troca de porradas das espanholas desantander (que cena, que cena), do baseado do coreano, dos filhas da puta dos nazi-suecos -, mas enfim, fomos chegar na frança quando o porco já rolava prum real madrid x barcelona num hostel que era umas camas num fundo de bar do miranda. o boa noite veio num cardápio improvisado com tudo que não se devia fazer no recinto: absurdos do tipo ‘beber vinho’, valeu, paris, sua merda.


pro paraíso, também perdi o bonde. foram vinte e três anos e um terço entre são bernardo, a neblina operária, e galway, a namoradinha da irlanda, até que finalmente eu subi a anchieta e vi a vergueiro virar bernardino de campos com um par decuecas e uma carteira vazia. não digo que já me desenflorostei por inteiro – é, já chegou o super nintendo e tem sardinhas no armário -, mas o colchão jogado no piso de taco já é bastante meu, como foi o da ruinha sem saída, o mesmo desde criança, e o da upper salthill, duro feito o primeiro porre de guiness na ilha verde.


mas voltemos ao midnight in paris. na minha chatice diária eu cheguei a dizer que homenagens no cinema são blasé e bonitas, e um meia-noite em diadema do woddy allen também seria um sucesso nessas salinhas cult. ‘allen faz um retrato jamais visto da cidade do abc, que de galpão automobilístico se torna uma peça de raro conhecimento social, retratando uma comunidade de uma diadema charmosa e quente, de noite que reserva segredos e dia que reflete o sol com uma sensibilidade ímpar, blá blá blá’.


de paris pra amsterdam eu e lucas revezamos o volante enquanto o luciano dormia no banco de trás. confesso que foi a melhor parte da parte francesa da viagem. no caminho um caminhoneiro romeno nos mandou pro outro lado, quase voltando pro país do mimimi; aí o cara do posto resolveu falar numa língua qualquer que a gente tava no caminho errado (ou certo); e, finalmente, algo nos colocou no caminho do cara mais bem preparado pra pegar a estrada no mundo: o babaca do caipira holandês tinha um mapa desses caros, de livraria, um outro mapa rabiscado no caderno e um mapa eletrônico tipo gps. e tava fazendo uma viagem como alguém que sai de campinas e vai pra são paulo. valeu, babaca, nos colocou na n8 e a gente foi sair no paraíso, um pouquinho melhor que esse paraíso daqui, eu diria.


eu queria poder contar pro woddy allen do nosso meia-noite em paris. largamos o albergue em direção ao centro, que acho que na verdade jamais encontramos, tamanho o deserto daquela noite de terça-feira de abril. pra não perder a piada, compramos um queijo e um vinho – o queijo foi devorado de forma primitiva, sem faca ou guardanapos, com cada um reservando seu terço pela marca dos dentes; o vinho, bom, o vinho veio em copos de plástico – e por fim encontramos o perfeito malandrão brasileiro nos indicando um lugar pra beber (o único lugar que a gente já tinha decidido que não iríamos, claro). acabamos no meio de uma avenida qualquer e sentamos no meio da calçadinha que dividia as pistas, tipo esses canteiros deprefeitura do pt. nisso, três meninas, nada francesas, pediram por fogo, e ali começou uma amizade de meia-hora com a surpresa de que uma delas tinha na mão um spray de pimenta. ela explicou que por ali é normal, medo de ataque da espécie macho. que coisa frágil, patética. valeu, paris, sua merda, por pouco não me deixa cego.


galway, saudosa, essa sim tinha uma grande meia-noite. eu me lembro quando eu pegava a bicicleta da ester e ia de surpresa na casa da elaine. levava quatro cervejas do tesco e pedalava por uns quinze minutos, que subida. a duas quadras da casa dela, passando ali a costa, eu ia num orelhão e ligava pra perguntar se ela tava em casa. se tivesse, ótimo, eu amarrava o camelo e virava a midnight ouvindo strokes e falando sobre os lugares do mundo que gostaria de conhecer. quando não, o relógio tornava o dia num meia-noite são bernardo: eu, dois ou três amigos, quatro ou cinco latas e as reflexões sobre o nada até de manhã. a diferença é só na força da ventania e da névoa, é, o oeste irlandês é um abc sem capital, vai.


aqui na pauliceia, porém, woddy, o meia-noite vem muito bem. foi no dia que eu fui te ver ali na augusta, nem fica muito longe do meu colchão no chão de taco, e depois que você terminou tua película sem clímax nem anti-clímax eu atravessei a rua pra tomar um conhaque com chocolate quente. de lá eu entrei num taxi que não me levou pra conhecer o bandeira, nem o pessoa, nem o machado, mas nem preciso, woddy, porque meu midnight comigo mesmo já me deixa bêbado demais. um dia vê se aparece pra molhar o bico de uísque, pode escolher tua trilha única, mas não espera dar meia-noite que são paulo, essa sim, é apaixonante, meu caro. um táxi sem volta, eu diria.

2 toque:

Marcio Hasegava disse...

Bacana o texto. Confesso que achei Meia-noite em Paris simpático. Foi o primeiro do Woody Allen que assisti. Depois dele, confesso que simpatizo e compartilho da ideia da minha namorada de tomar um porre em Montmartre. Quer dizer, no fim das contas, ficar bêbado na França deve ser o mesmo que ingerir Duelo em Mogi das Cruzes (esta, sim, uma cidade de merda), mas tá valendo.

Isadora Biella disse...

Achei do caralho.