fui testar o bilhete único e passou com créditos de não sei quando e o eclético corredor da estação paraíso levando pessoas às ruas e aos amores que vão aparecendo para que se mate saudade de casa cinquenta e poucos dias e dois e noventa depois. uma descida no parque e buzinas e bundas tão paulistanas e nossas quanto acreanas são as coxas e sorrisos que cortam as já saudosas garagens boêmias da também nossa rio branco.
cinco e qualquer coisa, a saída do hotel loureiro teve quase o mesmo ritual de sempre. a diferença é que desta vez a gente não ia voltar dali a pouco e depois da marechal deodoro, brasil e ponte velha tomamos a via chico mendes pela última vez deste tempo ouvindo jabuti bumba no volume quarenta e sete, meio sono meio coragem, meio preguiça meio alívio e cinquenta horas de acre na câmera.
na descida da augusta, os amigos e colegas vão pipocando abraços e brindes e tudo vai voltando ao normal. as grandes pernas morenas amazônicas viram bonitos pares mais brancos e suas saias e shorts jeans que levam a imaginação até o all-star também branco. a calmaria do rio que desce a gameleira vira luz, não o amarelo da ponte que leva ao segundo distrito da capital acreana, mas o vermelho das casas adultas e o amarelo dos copos de cerveja refletidos naquela multidão que corre e pulsa como em nenhum lugar do planeta.
numa pernada até rondônia, o calor queima, descasca o braço que sucumbe à direção interminável. resta só hora e pouquinho pro destino da primeira noite. o acre é passado, e num grito a gente se despediu dele enquanto o mestre cícero, na faixa nove, chamava as crianças a dançar. o sol se vai e o escuro nos deixa com o carro na mão. triângulo, macaco, guincho, um prato feito no bem bolado dos fundos da borracharia e música baixa pra dormir a última no norte.
norte, quem é que tem?, vá saber, eu ficava pensando enquanto alguém roncava no banco de trás e eu levava sozinho cem, duzentos, sei-lá-quantos quilômetros e tudo virou mato grosso, mato grosso do sul, são paulo e foi virando nossa casa de novo, assim, devagar mas rapidamente, sem avisar nem explicar muito o que estava acontecendo.
na mooca, falta pro autônomos, algo entre a meia e a ponta esquerda. no praticamente meu primeiro toque na bola ela viajou bonito - tá, não foram três mil e setecentos quilômetros - e estacionou lá no ângulo do goleiro rival. gol, gol, caralho, eu ergui o braço do sócrates pra comemorar feito o doutor, beijei o símbolo como em cada um dos meus quase dez pelo rubro-negro, uns tapas nas costas e o filme passando pela cabeça. um gol como o primeiro, e-xa-ta-men-te igual o primeiro, e de lá pra cá era meio de dois mil e nove, por aí, não tinha passado o frio de galway nem o calor de cuiabá, e era como se tudo começasse de novo, um primeiro gol de uma vida que parece, mesmo, recomeçar agora.
e aí eu me lembrei da incrível munique, onde o melhor plano era ficar perambulando sem plano pelas avenidas e parques da cidade. não muito diferente do que fizemos em assis brasil - o cu do país, disse um bêbado local - na tríplice fronteira - um rio e é bolívia, uma ponte e é peru; fui então ser turista em são paulo, cair na consolação e me perder entre as livrarias e bancas de jornal e me achar, finalmente, num pingado de balcão de mármore. e todas aquelas vozes, apertadas e sufocadas e brigando para invadir ouvidos a cada faixa de pedestres faziam o maior sentido possível.
mas o palmeiras foi a campo todo de verde no meu jogo de futebol favorito e aí eu me dei conta, se não bastasse tudo aquilo, que acho que não é tão difícil saber de onde se vem e onde se quer estar. o neymar fez o primeiro, menino bom, santos na frente, inteiro de branco, contraste com o luto da sala da casa dos meus pais que já foi virando aquele velório dos sonolentos jogos do nosso time todo santo domingo. às vezes não. mais um copo de café, uma mijada de porta aberta, e um último filho da puta prum volante improvisado bastaram para que o boring, boring palmeiras virasse a coisa mais legal do mundo. de novo.
primeiro nosso gigante macunaíma sobe feito centroavante que se respeite e empata, aos quatrocentos minutos do segundo tempo. não satisfeitos, os de verde-esperança partiram para o ataque, e seria demais imaginar um roteiro de gol contra, bola devagar, devagar, morrendo na rede pro lamento virar euforia em dois a um.
vai ver a única coisa que mudou fui eu mesmo, porque bastou uma volta no bairro da infância pra ver que tudo segue bem igual. o autônomos continua sofrendo com o calor, o acre se mantém longe pra caralho daqui, o palmeiras continua sofrendo com a bola mesmo, a augusta carece de amor e minhas saudades agora viajam sem cansar.
*a foto é do bruno graziano
*a foto é do bruno graziano

4 toque:
cara, do caralho. mesmo.
o petardo do sangue nas veias. viva!
Bom reencontrá-lo ontem. ABS!
Acristórico
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